Duplo terremoto atinge uma Venezuela já abalada por outra catástrofe

Duplo terremoto atinge uma Venezuela já abalada por outra catástrofe

Sem estrutura, Venezuela recorre à população para buscar desaparecidos após terremoto

O duplo terremoto que assolou o território venezuelano na noite de quarta-feira desembocou na precariedade crônica que o país caribenho enfrenta há décadas sob administração chavista .

A improvisação nos resgates de sobreviventes, executados pelos próprios moradores , a lentidão na atualização do número de vítimas e desaparecidos e a carência geral de infraestrutura para atender a uma catástrofe, cujos efeitos se agravam a cada minuto, refletem o fracasso e a negligência do Estado no suporte à população .

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Os números divulgados pelo governo não condizem com as cenas aterrorizantes de destruição, que escancaram a sensação de desespero de venezuelanos, aliada ao despreparo e à incapacidade dos sistemas de proteção civil. Um site criado pela população para rastrear os desaparecidos aponta mais de 40 mil pessoas .

“O terremoto atingiu um país já abalado por outra catástrofe: uma prolongada emergência humanitária, um governo autoritário e um ecossistema de informação profundamente deteriorado . Enquanto milhares tentavam localizar parentes desaparecidos, muitas plataformas permaneciam bloqueadas e a mídia independente continuava a enfrentar censura e restrições à sua atuação. Não sabíamos quantos prédios haviam desabado. Não sabíamos quantas pessoas haviam morrido. Nem sequer sabíamos para onde procurar”, resumiu a jornalista Gabriela Mejones Rojo, num dramático depoimento ao jornal espanhol “El País”.

O terremoto põe em xeque a transição política liderada pela presidente interina Delcy Rodríguez, no comando do país desde janeiro e sob a supervisão do governo americano, após a deposição de Nicolás Maduro.

A descrição de “país feliz”, feita pelo presidente Donald Trump num comício antes do terremoto, parecia distante da realidade dos 68% dos venezuelanos que vivem em extrema pobreza. A inflação anual, de 524%, é a maior do mundo. A dívida do país, de US$ 240 bilhões, equivale a 180% do PIB, segundo o FMI.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez — Foto: REUTERS/Kevin Lamarque / Wendys Olivo/Palácio Miraflores/Divulgação via REUTERS

Os dois primeiros dias de socorro expuseram o Estado disfuncional perpetrado em quase três décadas pelo chavismo: a deterioração do sistema elétrico, que submete os venezuelanos a apagões diários , e a falta de água e de insumos médicos. A carência já era crônica antes da tragédia, fruto de má-gestão e corrupção.

“O terremoto não era previsível, mas sabia-se que ocorreria em algum momento. A mitigação de riscos, o preparo para desastres e a estrutura institucional para resposta a emergências são inexistentes em um país cujo Estado foi desprovido das capacidades mínimas para a gestão governamental. A corrupção e a incompetência chavista hoje se refletem na vida dos venezuelanos ”, atestou o economista Omar Zambrano na rede X.

Como exemplo, há três dias, a Federação Médica Venezuelana pediu ao governo esclarecimentos sobre as 71 toneladas de medicamentos enviadas este ano pelos EUA e que não haviam chegado aos hospitais. Em abril passado, a entidade denunciou o desabastecimento e o abandono de 90% dos 301 hospitais.

São eles que, nessas condições, terão que arcar com a missão hercúlea do atendimento às vítimas .

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