
Federação de Futebol do Irã publica fotos da viagem da seleção para a Copa do Mundo
O Irã faz sua estreia na Copa do Mundo nesta segunda-feira (15) contra a Nova Zelândia, em Los Angeles, nos Estados Unidos. Porém, antes mesmo de pisar no gramado, a equipe iraniana já teve sua participação cercada por dúvidas e tensões geopolíticas.
O país, que está em conflito com os Estados Unidos e Israel desde o final de fevereiro, pensou em desistir de sua vaga, uma vez que as três partidas do time na fase de grupos acontecem em cidades americanas, um dos países anfitriões, ao lado de Canadá e México.
No entanto, esta não é a primeira ocasião em que a política interfere na trajetória da seleção iraniana no Mundial.
A participação do Irã na Copa do Mundo de 2022, no Catar, foi muito além do futebol. A equipe chegou ao torneio carregando o fardo de uma crise política doméstica, caracterizada por protestos contra o regime dos aiatolás e tensões diplomáticas.
A campanha iraniana de quatro anos atrás ficou conhecida como uma das mais politizadas da história das Copas. Dentro de campo, o Irã caiu no mesmo grupo que os EUA e perdeu a partida decisiva que valia uma vaga nas oitavas de final, sendo eliminado da competição.
Foi apenas o segundo duelo entre as equipes em uma Copa – o primeiro, em 1998, ficou marcado como "jogo da paz" e terminou com vitória iraniana.
O g1 relembra abaixo a participação da seleção iraniana no Mundial do Catar:
Convocação em meio a protestos
Silêncio no hino e pressão do regime
Eliminação pelos EUA e pedido de desculpas
Lágrimas de sangue na arquibancada
Espiões e repressão
1. Convocação em meio a protestos
Antes mesmo de a bola rolar, a seleção iraniana já estava envolvida em controvérsias. A convocação foi adiada em meio às manifestações que tomavam as ruas do país após a morte de Mahsa Amini, uma jovem de 22 anos detida pela polícia da moralidade.
Houve apelos internacionais para que o Irã fosse excluído da Copa, como o do time ucraniano Shakhtar Donetsk, que sugeriu a entrada da Ucrânia em seu lugar.
Contexto: o Irã viveu uma onda de protestos em 2022 em reação ao caso da jovem curda Mahsa Amini, de 22 anos, que apareceu morta após ser presa pela polícia dos costumes do país por "uso inadequado" do véu islâmico, obrigatório no Irã. Na época, os atos foram duramente reprimidos pelo regime dos aiatolás.
2. Silêncio no hino e pressão do regime
Seleção iraniana durante apresentação no campo em Doha, no Catar — Foto: Marko Djurica/REUTERS
Na estreia contra a Inglaterra, os jogadores se recusaram a cantar o hino nacional, em solidariedade aos protestos.
O gesto ganhou repercussão mundial, mas trouxe consequências: relatos indicaram que o regime ameaçou prender e torturar familiares dos atletas caso o silêncio se repetisse. A partir do segundo jogo, os jogadores voltaram a cantar, sob evidente pressão.
3. Eliminação pelos EUA e pedido de desculpas
Foto compartilhada pelo meia da seleção iraniana Saeid Ezatolahi do jogador com jovem morto a tiros por policiais no Irã após derrota do país na Copa, em 30 de novembro de 2022. — Foto: Reprodução/ Redes sociais
Em campo, o Irã foi eliminado na fase de grupos, após uma vitória e duas derrotas – uma delas para os EUA.
Estreia contra a Inglaterra (21/11): Derrota por 6 a 2, marcada também pelo choque violento entre o goleiro Alireza Beiranvand e um zagueiro, que obrigou sua substituição.
Vitória contra o País de Gales (25/11): Triunfo por 2 a 0 nos acréscimos. Nas arquibancadas, torcedores choraram e exibiram cartazes com mensagens como “Todos somos Mahsa”.
Confronto contra os EUA (29/11): O duelo decisivo carregava décadas de rivalidade política. A partida foi antecedida por polêmica: a federação norte-americana publicou a bandeira do Irã sem o emblema islâmico, o que gerou pedido de exclusão da Copa por parte dos iranianos. Em campo, derrota por 1 a 0 e eliminação. Após o apito final, jogadores caíram no gramado chorando. O volante Saeid Ezatolahi pediu desculpas: “Espero que nos perdoem” (veja a imagem acima).
Contexto: 24 anos separaram o primeiro do segundo confronto entre o Irã e os EUA nas Copas do Mundo. Em 1998, as duas seleções viveram um duelo memorável na Copa da França, com uma vitória por 2 a 1 para os iranianos. A partida foi batizada como "Jogo da Paz" e ocorreu em um período de reaproximação entre o Irã e o Ocidente.
4. Lágrimas de sangue na arquibancada
Uma torcedora do Irã é fotografada dentro do estádio antes da partida enquanto protestava — Foto: Dylan Martinez/REUTERS
Torcedores protestaram dentro e fora dos estádios durante a Copa do Catar. Uma das imagens mais marcantes é da torcedora que pintou o rosto representando lágrimas de sangue durante a partida entre Irã e País de Gales. Ela também exibiu uma camiseta de seleção iraniana com o nome de Mahsa Amini.
A mulher não foi identificada na época por questões de segurança.
Grupos de torcedores também foram vistos do lado de fora do estádio Ahmad Bin Ali se manifestando de diversas formas. Parte deles vestia camisetas com as palavras "Mulher, Vida e Liberdade". Também foram vistos cartazes pedindo liberdade para o Irã e o fim da república islâmica.
Apoiadores agitam bandeiras iranianas e uma mulher segura uma placa com os dizeres "Liberdade para o Irã. Não à República Islâmica" — Foto: Jin-Man Lee/AP
5. Espiões e repressão
Durante o torneio, torcedoras acusaram o governo iraniano de enviar espiões ao Catar para vigiar as manifestações. A tensão política se refletia também fora dos estádios, com relatos de intimidação e monitoramento de quem protestava.