
Ataque russo danifica telhado de mosteiro histórico tombado pela UNESCO em Kiev
Uma ofensiva russa de larga escala contra a Ucrânia nas primeiras horas desta segunda-feira (15) causou um grave incêndio e danificou parte da Lavra de Kyiv-Pechersk, um dos mais antigos e significativos mosteiros cristãos do país, situado na capital Kiev.
✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp
O ataque russo resultou ainda em nove mortes, incluindo socorristas em Kharkiv, e ao menos 20 feridos na capital.
De acordo com a Força Aérea Ucraniana, a Rússia disparou 70 mísseis e 611 drones em uma das maiores ofensivas aéreas recentes, direcionada principalmente a Kiev, Dnipro e Kharkiv. A defesa ucraniana afirmou ter interceptado ou neutralizado eletronicamente 632 alvos (50 mísseis e 582 drones), mas pelo menos 20 mísseis balísticos e 27 drones atingiram 42 locais em todo o território nacional.
O telhado da Catedral da Dormição, parte do complexo monástico de Kiev-Pechersk, foi tomado pelo fogo e sofreu danos significativos durante o bombardeio. O local, também chamado de Mosteiro das Cavernas, foi erguido entre os séculos XI e XIX (a partir de 1051) e é reconhecido como Patrimônio Mundial pela UNESCO.
A Rússia negou nesta manhã ter alvejado o Mosteiro das Cavernas.
Socorristas trabalham para extinguir um incêndio na Catedral da Dormição do milenar Mosteiro das Cavernas, também conhecido como Lavra de Kyiv-Pechersk. — Foto: Evgeniy Maloletka / AP
Em retaliação, um ataque ucraniano com drones atingiu duas pontes que conectam a região de Kherson, sob controle de Moscou, à península da Crimeia, anexada pela Rússia. O tráfego na área foi completamente interrompido.
Do lado russo, o Ministério da Defesa declarou que suas defesas aéreas abateram 123 drones ucranianos durante a noite.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, usou sua conta na rede social X para condenar o bombardeio, descrevendo-o como "um dos crimes mais graves da Rússia contra a cultura cristã até hoje". Zelensky também fez um apelo urgente aos países do G7 para que aumentem a pressão sobre o Kremlin e intensifiquem o fornecimento de sistemas de defesa aérea à Ucrânia.
"É mais um crime contra a humanidade, contra a história e contra o cristianismo", denunciou o metropolita Epifânio, líder da Igreja Ortodoxa da Ucrânia.
O ministro das Relações Exteriores da Ucrânia reagiu severamente ao bombardeio contra o templo religioso. "Iniciaremos urgentemente todos os procedimentos relevantes dentro da UNESCO para respostas imediatas e adequadas a este barbarismo de Estado", afirmou o chanceler.
O ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Noël Barrot, condenou duramente a ação ao chegar para uma reunião de ministros da UE.
"Isso é um patrimônio mundial da UNESCO, o que equivale, para nós na França, como se a Catedral de Notre Dame ou a Basílica de Saint-Denis tivessem sido bombardeadas, o que é totalmente inaceitável", declarou Barrot.
Ataques intencionais contra civis
Os bombardeios deixaram um rastro de destruição e mortes em áreas urbanas de várias províncias ucranianas. Na capital, Kiev, o chefe da Administração Militar, Tymur Tkachenko, atualizou o balanço para quatro mortos e ao menos 30 feridos, incluindo duas crianças de 5 e 6 anos.
Em menos de 30 minutos, cinco mísseis atingiram alvos civis no distrito de Shevchenkivskyi, incendiando um edifício residencial de 25 andares, um mercado e uma mercearia. Já no distrito de Obolonskyi, um prédio de nove andares foi atingido diretamente. Para Tkachenko, o ataque contra os blocos de apartamentos foi uma "decisão deliberada" de Moscou.
Em Kharkiv, a segunda maior cidade do país, as forças russas empregaram a tática conhecida como "toque duplo" (double tap). O método consistiu no lançamento de quatro drones adicionais no distrito de Kholodnohirskyi logo após a chegada das equipes de emergência que atendiam uma ocorrência anterior. Este segundo impacto matou quatro socorristas e um funcionário do conselho municipal, além de deixar outros seis socorristas e três civis feridos.
Os ataques também atingiram Dnipro, onde os projéteis destruíram o prédio de uma faculdade local e estilhaçaram as janelas de uma escola e da Casa de Música de Órgão e Câmara. Duas pessoas ficaram feridas na região, que foi alvo de quase 30 ataques combinados de artilharia, mísseis e bombas guiadas. Já na província de Sumy, um míssil atingiu um edifício residencial, deixando três feridos, entre eles uma criança.
O que diz a Rússia
O Ministério da Defesa da Rússia confirmou a autoria dos ataques, mas alegou ter utilizado armas de precisão de longo alcance e drones voltados exclusivamente contra alvos militares legítimos, como indústrias bélicas, centros de recrutamento e bases aéreas em Kiev, Kharkiv e Dnipro.
Em nota oficial, o governo russo afirmou que "os objetivos foram cumpridos e todas as instalações designadas foram atingidas".
Telhado da Catedral da Dormição pega fogo após ataque. — Foto: Danylo Antoniuk / AP